terça-feira, 9 de junho de 2015

Portugal: Maria Elisa: As confissões sobre o amor e o assédio moral na RTP

Chegou sexta-feira às livrarias o livro onde Maria Elisa partilha as suas Confissões de uma Mulher Madura. O Observador selecionou passagens dos capítulos dedicados à vida sentimental e profissional.

Por Observador.pt

É comum lermos que uma das vantagens de se atingir uma certa idade é já ter a vida sentimental relativamente tranquila. Creio que é preciso encarar estas «verdades» com bastante ceticismo: para mim, os quarenta e os cinquenta foram períodos de enorme agitação amorosa.

Talvez em termos estatísticos seja assim: a juventude é, por definição, um tempo conturbado, em matéria de sentimentos, a idade em que nos sentimos mais afoitos para qualquer experiência, porque achamos, e com uma certa razão, que temos todo o tempo do mundo à nossa frente e coragem para todas as aventuras. Com a passagem dos anos, tendemos a sentir-nos mais medrosos, a pensar mais na nossa tranquilidade, a ter mais medo de arriscar… Não foi esse o meu caso. Se nalgum campo fui destemida e aceitei riscos, foi no sentimental.

Algumas das histórias de amor que vivi correram bastante mal. Magoei-me, sofri, ter-me-ei até prejudicado, do ponto de vista profissional: enquanto certas relações, com pessoas que nos estimam e apreciam, reforçam a nossa auto-estima e nos ajudam, sob todos os pontos de vista, a sermos melhores, a sentirmo-nos mais capazes, outras, por serem destrutivas, levam-nos a duvidar de nós próprios, das nossas capacidades, tornando-nos por isso mais vulneráveis. Por qualquer razão, calharam-me mais das últimas do que das primeiras. Ou deixei-me seduzir mais pelas últimas. E isso não nos acontece sem consequências. Teria preferido não ter passado por algumas dessas vivências? Sem dúvida: mostraram-me alguns dos lados mais negros do ser humano e eu ter-me-ia contentado com o conhecimento livresco e cinematográfico de tais facetas. Mas, por outro lado, permitiram-me entender melhor o sofrimento das pessoas em certas situações, sentir-me imediatamente solidária quando os outros ainda duvidam, porque lhes é mais cómodo não perceber (ou fingir que não percebem) certos comportamentos patológicos dos quais há sinais que não deviam oferecer dúvidas. Relacionei-me sentimentalmente com seres que se revelaram capazes de um enorme cinismo quando tudo neles fazia crer em almas cândidas. Apesar de tudo, não me tornei cética em relação ao amor, até porque vim a repetir mais tarde erros do mesmo tipo. Antes isso do que ter medo de viver. A minha educação, feita do autoritarismo e das proibições tão comuns para as jovens que viveram a adolescência nos anos 60, como eu, foi o caldo de cultura para moldar um ser cheio de sonhos e fantasias, pois que nada mais me era permitido. Que jovem acreditaria, hoje, que, antes de casar, aos 19 anos, saí uma única vez à noite, num dia de aniversário? E, não só não vivi nos séculos XVIII ou XIX, como tinha amigas da mesma idade com experiências semelhantes, embora não tão extremas.

No entanto, ao olhar para trás, vejo sobretudo uma vida plena, uma vida que, do ponto de vista amoroso, valeu a pena ser vivida. Conheci e vivi grandes paixões, que me proporcionaram momentos da maior felicidade, memórias que ainda hoje revejo com infinito prazer. Nem todos podem olhar para trás e pensar assim. Infelizmente, não me foi possível estabelecer uma relação estável em nenhum desses casos, quer devido às inibições morais e sociais da época, num caso, quer ainda à ausência de um sentimento amoroso, de natureza mais afectiva e persistente, no outro.

Neste tipo de paixão, vivida de forma exaltante, o desfecho traduz-se com frequência em grande sofrimento. Aliás, a etimologia da palavra “paixão” é pathos, a mesma da palavra patologia, ou doença. «Como todas as grandes criações do homem, o amor é duplo: é a suprema ventura e a desdita suprema (…). Os amantes passam sem cessar da exaltação ao desânimo, da tristeza à alegria, da cólera à ternura, do desespero à sensualidade. Ao contrário do libertino, que busca a um tempo o prazer mais intenso e a insensibilidade moral mais absoluta, o amante é perpetuamente movido pelas suas emoções contraditórias», escreveu Octavio Paz, num dos mais belos livros sobre o amor e a paixão, intitulado La llama doble. Experimentar esses sentimentos produz inquietação, medo do desconhecido, de perdermos a noção dos nossos próprios limites, de nos perdermos, em suma. Mas não trocaria por nada a dose de sofrimento que vivi como contrapartida inevitável de conhecer todas as sensações que decorrem da dualidade do amor.

Uma segunda oportunidade

Quando me aproximava dos 60 anos, e estava totalmente disponível, pensando que seria difícil, senão mesmo impossível, encontrar uma relação estável e tranquila, que não provocasse muita ansiedade nem sofrimento, como havia acontecido com algumas das anteriores, experiências que me recusava a repetir, eis que conheço, através de amigos comuns, em Washington, o meu segundo e actual marido (estive divorciada entre os 28 e os 62 anos, resistindo a alguns pedidos de casamento por não acreditar que fossem relações para durar. Creio que agi sensatamente). Jamais me passara pela cabeça vir a apaixonar-me e casar com um homem que vive literalmente do outro lado do mundo, mais exatamente, na costa da Califórnia! Mas aconteceu-me e pode certamente acontecer a qualquer um(a), quando menos se espera.

Como o meu marido, dois anos mais novo do que eu, continua a trabalhar – é advogado numa grande empresa – e o fará decerto por mais alguns anos ainda e eu, desde que saí da RTP, escrevo as minhas crónicas e os meus livros, baseada naquilo que conheço melhor, ou seja, a realidade portuguesa, não podemos, por enquanto, viver juntos em permanência. (…)

Tenho para mim que uma relação deste tipo, em que a distância é uma realidade durante largos períodos de tempo, não terá condições de sobrevivência quando ainda se é jovem. Os sentimentos de posse, o ciúme, a impaciência, a necessidade de partilhar constantemente o momento presente são apanágio dessa idade, em que acreditamos até que não sentir assim é sinónimo de menos amor. Na verdade, há outras formas de amar, em que a não-presença é tolerável, ainda que sofrida, mas creio que só se aprendem com a idade ou, pelo menos, com uma certa forma de maturidade que, regra geral, só a idade traz consigo.

Acredito que alguns desgostos de amor me ajudaram a entender melhor que esta relação na idade madura merecia uma oportunidade, apesar das dificuldades que, à partida, se nos colocavam e que nos levaram a ponderar a possibilidade de o casamento poder resistir à distância e resultar durante cerca de três anos. Quase outros três anos passados, posso afirmar que sim: o meu marido é um excelente companheiro, tem uma filha de 26 anos que sempre apoiou a nossa relação e ele integrou-se na nossa família com uma facilidade que me espanta. E tem ainda uma total paixão por Portugal, do que já conhece e do que lhe falta conhecer. Paixão que inclui, por exemplo, gostar muito mais de fado do que eu. Na nossa casa, em São Francisco, pode passar-se um fim-de‑semana inteiro a ouvir fado. Já deixei de protestar; afinal no casamento tem de haver concessões.

O lugar da vida profissional 

Como todos aqueles que exerceram uma actividade profissional durante a maior parte da vida adulta, deixar de trabalhar de forma diária e regular, com um horário mais ou menos fixo – na realidade, os horários dos jornalistas são bastante atribulados, incertos e muito intensos –, constituiu, para mim, uma dificuldade que ainda não ultrapassei.

Tal como tantas outras pessoas da minha geração, não parei a minha actividade profissional regular por gosto, antes por uma forma que me pareceu de «imposição» insidiosa e cheia de subterfúgios, mas real.

Na RTP, à qual estive ligada, com vínculo contratual, por mais de 40 anos (…), fizeram-me sentir, aos 62 anos, que a minha presença não era desejada. Ninguém mo comunicou, ninguém me convidou a sair, embora me tenha parecido que o então presidente da empresa acreditava que negociar a saída era a melhor solução. Perante isto, fazer o quê?

Este tipo de situações está hoje definido como «assédio moral», que pode assumir muitas configurações. Um dos mais clássicos é exatamente aquele que eu vivi: manter um funcionário fechado entre quatro paredes sem lhe atribuir qualquer trabalho ou função. Para cúmulo do cinismo, em algumas das raras e ocasionais conversas com os então responsáveis pela direcção a que eu pertencia, as minhas qualidades profissionais eram sempre altamente elogiadas. Há pessoas que aguentam estas situações anos a fio, recompensadas no fim do mês pelo ordenado que continua a ser-lhes depositado na conta. Tenho para mim que são animais de sangue-frio; eu pertenço à categoria oposta.

O assédio moral no local de trabalho

Cerca de 15 anos atrás, vivera situação semelhante, com a agravante de ter sido «despejada» do edifício principal da RTP, então na Avenida 5 de Outubro, onde sempre trabalhara, para uma cozinha de um andar em frente que também pertencia à empresa. Embora durante o tempo que aí permaneci tivesse quase sempre trabalho atribuído, essa era uma outra forma de assédio moral, cujo objetivo era isolar-me dos outros colegas, humilhando-me com a colocação na tal cozinha – na sala adjacente estavam as minhas pesquisadoras – sem qualquer tipo de aquecimento, o que nos levava a trabalhar no Inverno enfiadas até às orelhas nos casacos compridos.

Em vão tentei levar esta situação a tribunal: uma eminente advogada que consultei demonstrou-me que seria uma perda de tempo e de dinheiro, já que não havia legislação em que se pudessem apoiar as minhas queixas. Mais tarde, durante o ano em que não me foi distribuído trabalho, teria decerto matéria para recorrer ao tribunal de trabalho, já que o trabalhador tem direito ao trabalho; mas nessa fase estava demasiado abatida com a situação de cuidadora da minha mãe, cuja morte estivera já por diversas vezes iminente, de tal modo que não me senti capaz de enfrentar um eventual processo em tribunal contra a RTP, com a polémica na comunicação social que não deixaria de o acompanhar.

Noutro país e, em particular, naqueles em que a justiça funciona em devido tempo, seria possível fazer algo, sim: por exemplo, no Reino Unido, Selina Scott, jornalista de televisão que se tornou célebre depois de ter sido o rosto feminino do Breakfast Time da BBC, no início dos anos 80, um ano mais nova do que eu, ganhou um processo contra a Channel Five que acusou de «discriminação em função da idade», depois de lhe ter sido retirado o convite para substituir, na apresentação das notícias da noite, uma colega durante a licença de parto.

Mais importante ainda, Selina elaborou um relatório contra a BBC – com a colaboração das ONG Age Concern e Equal Justice – acerca dos casos de «discriminação em função da idade» na estação pública. Esse relatório foi apresentado ao chairman da BBC, Sir Michael Lyons, em Julho de 2010 e, coincidência ou não, Selina Scott recebeu em Setembro do mesmo ano o primeiro convite para voltar a colaborar com a BBC depois de muitos anos de ausência – durante os quais trabalhou também na ITN, na Sky e na já referida Channel Five – embora para a rádio, no caso a prestigiada Radio 2, na emissão da manhã.

Tendo passado por uma situação rocambolesca na RTP, que tem de paralelo com o caso de Selina Scott um convite, embora o meu de dimensão muito mais impactante e de longo prazo que, depois, sem qualquer explicação, foi retirado – sem que, mesmo isso, me fosse dito, ao longo de muitos meses de dúvida, desconforto, perplexidade, já para não falar de trabalho investido e perdido –, tentei sensibilizar mais do que um advogado para interpor um processo contra a RTP, exatamente pelos motivos invocados pela jornalista britânica: «discriminação em função da idade». No entanto, fui dissuadida nas minhas várias tentativas, com argumentos tais como não haver legislação clara sobre o tema, o assunto poder ser ridicularizado (o que demonstra bem o atraso do nosso país em relação a um entendimento moderno da igualdade de direitos e oportunidades) e, sempre, o velho argumento «não vale a pena fazer nada porque, com a lentidão dos tribunais portugueses, daqui a dez anos ainda não está nada resolvido», etc., etc. De quantos processos – por exemplo, por difamação, de que fui vítima por várias vezes – não desisti eu, cedendo a argumentos semelhantes de amigos advogados? A verdade é que, quando os problemas ocorrem e nos magoam, quando não destroem, é exatamente quando precisávamos de um «empurrão » para ir para a frente, para lutar, e não de palavras que contribuem para quebrar a nossa resistência, para nos forçar a desistir, porque fazer-nos desistir era aquilo que os nossos inimigos, ou aqueles que nos queriam prejudicar, pretendiam que acontecesse. Hei-de voltar, em circunstâncias mais apropriadas, a este assunto, com mais pormenor.

(fonte, acesso em 09/06/2015)

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