sexta-feira, 17 de julho de 2015

Artigo de Maíra Moraes: Aforismos sobre o assédio moral

Fragmentos do que já ouvi e vivi sobre o tema.

Por Maíra Moraes - Obvious

Isso nunca vai acontecer comigo

Nos últimos anos tenho lidado com muita frequência com conhecidos e amigos que se reconhecem dentro do turbilhão conhecido como assédio moral no ambiente de trabalho. Eu mesma, em uma experiência recente, mesmo com comprovada qualificações e certificações para desenvolver meu trabalho, com reconhecimento e elogios de vários ex-chefes, parceiros e fornecedores , me sentia constantemente humilhada e incapaz de realizar o que sempre fiz muito bem.

Mas me parece que tudo isso vem travestido como uma doença contagiosa envolta de preconceitos, que você tem certeza que não faz parte de seu estilo de vida e, mesmo se estivesse contaminada, esconderia dos outros e até de si mesmo, vivendo numa fase plena de negação, raiva e barganha.

Assumir a fragilidade é o primeiro passo para se dar conta de que é possível sim, que estejam jogando a sua autoestima no fundo do poço. Escolher acreditar nas pessoas que ressaltam suas qualidades é o que vai garantir a escalada de volta.

O julgamento católico

Entre 2013, acompanhei o declínio da autoestima de um amigo. Seus “colegas” de trabalho faziam constantes piadas sobre sua orientação sexual e sua chefe não perdia a chance de confundir o seu escopo de trabalho e de dar missões impossíveis com prazos inexequíveis. Resultado: ele tornou-se incompetente.

Eu conhecia Alexandre. Antes de ser meu amigo, coordenei seu trabalho na implementação de um projeto complexo. Foram 4 anos que ele me mostrou ser uma figura controvérsa, daquela que não passa despercebida nos lugares (para o bem ou para o mal) e, acima de tudo, competente e comprometido com o trabalho. Era essa pessoa que eu respeitava e defendia sua presença na equipe.

Mesmo com este passado, eu não acreditava em assédio moral. Como uma pequena burguesa católica, pensei: “ele deveria ter se esforçado mais". Pouco tempo depois, li o relato em um blog de um ex-colega de Alexandre e lá estavam todos os elementos descritos. Era verdade. Alexandre foi assediado moralmente.

Essa história me fez olhar com mais cuidado a postura com minha equipe de trabalho e estar atenta aos sinais individuais. O fato de você se sentir moralmente desconstruída pelos seus superiores pode fazer com que você repita os mesmos padrões.

A conjunção adversativa

Você é competente, mas é incompetente.

Isso não é um paradoxo dentro das organizações, acreditem.

É uma expressão que se transformou em recurso de linguagem dentro das sessões de feedback empresarial. O que me entristece é tanto investimento feito em formação técnica para “ensinar” um gestor a conversar com seu subordinado e pouco se orienta quanto ao uso correto da língua portuguesa.

Em algumas empresas, a sessão de feedback evoluiu para as sessões de “coach”. Cheguei a participar de três encontros para meu desenvolvimento pessoal e profissional, realizado pela mesma pessoa que destacava minhas incapacidades gerenciais, tendo como exemplo, ela própria e seu conjunto de competências. Pedi demissão antes do quarto encontro e me senti livre dentro do metrô da linha vermelha no horário do rush.

Por outro lado, tive colegas de trabalho que desenvolveram a maestria de sair dessas reuniões como se nada tivesse acontecido: "Uma hora de nada com a vantagem de ser remunerada".

Faça sua escolha com clareza, mas tenha como princípio não prorrogar sofrimentos.

Não sei se sou capaz

Tenho a felicidade de ter uma boa lista de pessoas que trabalharam comigo, acima ou abaixo na hierarquia organizacional, que continuo mantendo contato e admiração.

Recentemente, uma dessas pessoas me ligou para comemorar o fato de ter sido contratada para um cargo que, em um momento, acreditou estar acima das competências dela.

Ouviu tanto que era incompetente que, em um instante, chegou a acreditar.

A negra, o gay e as promoções

Na minha carreira, tive apenas uma experiência real de ambiente de trabalho aberto à diversidade de gênero, credo, cor... isto é, uma experiência de inclusão. Apenas uma. O que vivi, na maior parte das vezes foi a supervalorização do igual e do pensar da mesma forma. Cenários nos quais o disfarce da igualdade cobria a hipocrisia da invisibilidade.

A promoção de um profissional deve ser realizada a partir de seu conjunto de competências, realizá-la com base em outras variáveis é sinal de preconceito.

Aos amigos, tudo!

Certo dia, ouvindo uma colega de trabalho realizar uma apresentação senti que alguma coisa não estava colando. Fechei os olhos para “ver” o que estava acontecendo. Era como se outra pessoa estivesse falando - no caso, a chefe - , o mesmo tom de voz, os mesmos vícios de linguagem. Como a turma das meninas da quinta série que se metamorfoseiam para serem aceitas. A imagem que se formou na minha mente foi a de Zelig e me veio a pergunta: o quanto vale a pena ganhar para deixar de ser você mesmo?

(fonte, acesso em 17/07/2015)

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